A superintendência do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) em Mato Grosso do Sul lançou uma campanha para incentivar os pescadores amadores e esportivos a caçar os peixes exóticos que invadiram a bacia do Pantanal, não devolvendo-os ao rio, dentre eles o tucunaré, da bacia amazônica. Com isso, o órgão federal quer “salvar” as espécies nativas do ecossistema.

A medida, pela forma como está sendo conduzida, surpreendeu os setores ambiental e turístico, não sendo precedida ou respaldada de nenhuma norma técnica (pelo menos não foi divulgada), mas de argumentos boca-a-boca de técnicos que estão percorrendo os destinos de pesca para anunciar o que alardeiam como oficial: não tem cota ou tamanho para os peixes exóticos e a ordem é tentar extermina-los a partir de 1º de março, quando termina a piracema.

Um vídeo mostrando a visita dos técnicos do Ibama aos pesqueiros para comunicar a decisão tomada espalhou-se pelas redes sociais. Cartazes também são espalhados anunciando a campanha: “Atenção, pratique o seu esporte favorito e ajude o meio ambiente”. Ou ainda: “pesque com responsabilidade, as espécies de peixes exóticos listados, quando fisgadas nos rios da bacia do Pantanal em Mato Grosso do Sul, NÃO DEVEM SER SOLTAS”.

Pesque e leve

O aviso do “pesque e leve” lista seis espécies exóticas: tucunarés azuis e amarelos, tambaquis, tambacus, pirararas e corvinas. Matéria publicada no site Campo Grande News informa que não se tem noção dos danos que a presença desses peixes já causou ou que pode causar à fauna ictiológica do Pantanal. O tucunaré, por exemplo, entrou no bioma há mais de 40 anos, a partir do rompimento de uma barragem em Mato Grosso, nos anos de 1980.

Cartaz distribuido pelos técnicos do Ibama nas regiões de pesca

Na época, a Embrapa Pantanal projetou um cenário catastrófico, pelo fato de ser uma espécie altamente predatória, porém não se falou mais sobre o assunto e a redução do estoque pesqueiros foi atribuída à pressão da pesca profissional e amadora, originando a redução das cotas de captura até o estágio atual, de incentivo ao pesque e solte. Mas o assunto voltou à tona e agora o prognóstico é de ameaça de extinção das espécies nativas.

Responsável pela campanha que visa eliminar a população dos peixes exóticos, o analista ambiental do Ibama em Mato Grosso do Sul, Reginaldo Yamaciro, explica que entre as espécies listadas, a pirarara é a que apresenta maior risco aos rios do bioma porque compete de forma equivalente pelo mesmo ambiente em que vivem jaús e dourados. Considerada um grande bagre, a pirarara teria sido introduzida irregularmente no Rio Aquidauana.

Faltam pesquisas

“O ambiente, no caso do Pantanal, quando ocorre entrada de outras espécies, é mais complicado porque é um sistema mais complexo, mais frágil. Quando entra uma nova espécie, as espécies vão mantendo relações entre elas e com o ecossistema, e, dependendo, uma compensa a outra. Ou passam a competir pelo ambiente e pela alimentação”, explica Yamaciro ao Campo Grande News.

Ele afirma que a introdução irregular de espécies exóticas ocorre há anos e em todo Brasil. Especificamente em Mato Grosso do Sul, o primeiro invasor foi o tucunaré, na década de 80, quando estourou uma barragem em Mato Grosso. Depois, da mesma forma, foi introduzido o tambaqui. A corvina está há muitos anos na bacia do Rio Paraguai e “muitos acham que é da bacia, mas não é”, diz o analista. O tambacu é o cruzamento do tambaqui com o pacu, que é de MS.

Para ele, a pirarara é a espécie mais perigosa e danosa ao ecossistema do Pantanal, porque pode dizimar peixes como pacu e dourado, nativos da região. “O tucunaré está aqui há uns 40 anos e se adaptou, mas a pirarara está expandindo e não sabemos ainda o alcance do prejuízo”, diz. O analista afirma que faltam pesquisas para avaliar os impactos dessas espécies no ecossistema e clama que as universidades possam buscar as respostas científicas.

Yamaciro anunciou que, para o ano que vem, na atual lista do “pesque e não solte” entrarão mais duas espécies exóticas: o bagre americano e a tilápia. “Podem ser criações clandestinas que acabaram acessando os rios”. A campanha não tem data para acabar, mas deve ser restringida durante a piracema, que começa em 5 de novembro. Isso porque, independente da espécie, a pesca é proibida até 28 de fevereiro nos rios de Mato Grosso do Sul. Por: CGNEWS