Altamente contagioso e com capacidade de permanecer “escondido” no organismo mesmo sem sintomas, o rinovírus, conhecido como “vírus do resfriado”, lidera os casos e as mortes por infecções respiratórias em Campo Grande. Até terça-feira (7), o vírus era responsável por 126 dos 222 casos confirmados na Capital e por quatro das 31 mortes registradas.
No ano passado, o rinovírus foi responsável por 51,4% das infecções registradas na Capital, com 644 casos de um total de 1.253. Também foram contabilizados 32 óbitos associados a ele, ficando atrás apenas da influenza A em número de mortes.
Embora geralmente associado a quadros leves, como o resfriado comum, o rinovírus pode evoluir para formas graves, incluindo pneumonia, bronquiolite e sibilância (chiado no peito), principalmente em crianças, idosos e pessoas imunocomprometidas.
Entre os sintomas mais comuns, estão:
- Coriza;
- Dor de garganta;
- Tosse;
- Espirros;
- Congestão nasal.
Diferentemente da gripe, a febre é incomum ou aparece de forma leve. Conforme o Cievs (Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde), entre janeiro e março de 2025 e 2026, o rinovírus predominou entre os vírus respiratórios detectados em unidades sentinelas de Campo Grande.
“Nos dois anos, predominou a circulação de rinovírus. Em menor número, também houve casos de covid-19, influenza A e, por fim, o metapneumovírus”, aponta o relatório.
Outro ponto que preocupa é a capacidade do vírus de se “esconder”. Um estudo conduzido por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo), em Ribeirão Preto, identificou que o rinovírus pode permanecer em tecidos como amígdalas e adenoides mesmo em pessoas assintomáticas.
A pesquisa analisou amostras de 293 crianças submetidas à retirada desses tecidos e mostrou que o vírus consegue infectar células de defesa — os linfócitos — e permanecer nelas por longos períodos.
Conforme o estudo, 46,7% apresentavam o vírus, mesmo sem sintomas de resfriado por pelo menos um mês antes da cirurgia. Esse comportamento permite a transmissão silenciosa do patógeno.
Rinovirologista Eurico de Arruda Neto, professor da FMRP-USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto), destaca que o fenômeno ajuda a explicar surtos frequentes em ambientes escolares.
“O vírus tem um encontro marcado com a população infantil. Todos os anos, cerca de duas ou três semanas depois que as aulas começam em regiões de clima temperado, ocorre um surto de rinovírus. E as crianças levam para os pais e avós. A gente sempre teve essa dúvida: o que tem a ver o início das aulas? Ora, juntam-se crianças em um espaço fechado, e algumas delas com o vírus na garganta podem semear o surto na escola mesmo estando assintomáticas”, disse em entrevista à Agência Fapesp.
Descoberta muda a percepção sobre o vírus
Segundo os pesquisadores, já se sabia que o vírus infecta o epitélio do nariz e da garganta, utiliza o maquinário celular para se multiplicar e, em seguida, rompe a célula hospedeira para liberar novas partículas — processo típico de vírus líticos. Esse ciclo rápido costuma ser contido pelo sistema imunológico em cerca de cinco a sete dias.
Mas a novidade é que o rinovírus consegue atingir camadas mais profundas dos tecidos das amígdalas e adenoides e infectar linfócitos dos tipos B (produtores de anticorpos) e T CD4, que atuam como maestros da resposta imunológica local e são responsáveis pela memória imunológica. Em vez de destruí-las, o rinovírus pode permanecer em estado de persistência, semelhante ao observado em vírus como herpes, HPV e citomegalovírus.
A descoberta, publicada na revista científica Journal of Medical Virology, muda a percepção sobre o vírus. Até então, acreditava-se que o rinovírus se limitava às células superficiais da mucosa respiratória.
Prevenção é principal forma de controle

Para prevenir a infecção, o Ministério da Saúde recomenda medidas simples de higiene. Lavar as mãos frequentemente com água e sabão por pelo menos 20 segundos, usar álcool em gel quando necessário e evitar tocar olhos, nariz e boca são atitudes essenciais.
Também recomenda-se evitar contato próximo com pessoas doentes e redobrar os cuidados em ambientes fechados e com grande circulação de pessoas.
As infecções por rinovírus são mais comuns durante o outono e a primavera, com menor incidência no inverno, e se espalham principalmente por contato direto entre pessoas, embora também possam ser transmitidas por partículas respiratórias no ar.
Já o tratamento é sintomático, com repouso, hidratação e uso de medicamentos para aliviar os sintomas.







