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Maracaju, a “Terra da Linguiça”, une tradição familiar e recorde mundial

por Mary | out 8, 2026 | ENTRETENIMENTO, GERAL, INTERIOR | 0 Comentários

Receita de origem rural, a linguiça cortada à faca virou festa, entrou para o Guinness Book e hoje tem Indicação de Procedência

Com pouco mais de 50 mil habitantes, Maracaju, no interior de Mato Grosso do Sul, é conhecida em todo o país por um produto: a linguiça tradicional. O que começou na cozinha de famílias rurais virou símbolo da gastronomia sul-mato-grossense, ganhou festa própria, entrou para o Guinness Book e conquistou registro oficial que protege sua origem.

Da necessidade ao sabor

A história da receita remonta ao século XIX, quando famílias vindas principalmente de Minas Gerais e Goiás chegaram à região trazendo seus costumes culinários. Como a carne bovina era abundante nas propriedades, mas conservá-la e transportá-la em longas viagens era um desafio, a solução foi transformá-la em linguiça.

O diferencial está no preparo: em vez de carne moída, a carne é cortada manualmente, na ponta da faca. A receita tradicional leva carne e gordura bovinas, alho, sal, pimenta dedo-de-moça, cheiro-verde e laranja, lembrada na tradição local como laranja-azeda.

A preparação é atribuída à família Marcondes, pioneira no prato, e circulava entre parentes, vizinhos e amigos. Aos 90 anos, o produtor Gerson Marcondes ajuda a contar essa história. Há cerca de 68 anos, na preparação de seu casamento, um parente, Joaquim de Souza, foi escolhido para fazer a linguiça servida aos convidados. Foi ele, segundo Gerson, quem batizou a receita com o nome que a tornaria conhecida.

Uma festa que virou vitrine

Em 1994, durante visita do governador do Rotary, Hélio Mandetta, e de sua esposa, Maria Olga, surgiu a ideia de usar a linguiça para reunir pessoas e arrecadar recursos para ações sociais. O que seria um almoço cresceu a cada edição, com música, cultura, gastronomia e novos parceiros.

Em 2026, a Festa da Linguiça registrou mais de 40 mil pessoas em quatro dias, e estima-se que mais de oito toneladas do produto sejam comercializadas no município. O evento também movimenta a economia, com mais de cinquenta empresas contratadas e mais de quinhentas diárias de trabalho, além de beneficiar hotéis, restaurantes e comércio.

Para Rogério Nodimatu, presidente do Rotary Club, a festa é a vitrine da cidade. “Reúne moradores e visitantes em torno de uma história que a cidade reconhece como sua”, afirma. Nos últimos três anos, mais de R$ 1 milhão foi doado a entidades de Maracaju.

Um lugar no Guinness Book

Em 1997, produtores decidiram mostrar até onde a tradição podia chegar e fizeram uma linguiça contínua, sem emendas, com mais de 30 metros. O feito levou o nome de Maracaju ao Guinness Book, um dos livros de recordes mais conhecidos do mundo, e ampliou a visibilidade da cidade.

Proteção da origem

Com a fama, veio a preocupação de garantir que o produto vendido como “linguiça de Maracaju” seguisse a receita tradicional. A Aptralmar (Associação dos Produtores da Tradicional Linguiça de Maracaju) buscou o reconhecimento no Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial). Depois de anos de trabalho, em 24 de novembro de 2015, Maracaju recebeu o registro de Indicação de Procedência.

O registro liga oficialmente o produto ao território onde a tradição foi construída. A ficha técnica do Inpi define o uso de carne e gordura bovinas, alho, sal, pimenta dedo-de-moça, cheiro-verde e laranja, além do corte manual da carne.

O desafio, segundo Juliano Ibba, também presidente do Rotary Club, é preservar a identidade coletiva sem apagar a história de cada família. “Há espaço para a memória e a experiência de cada família, mas o uso da Indicação de Procedência exige a observância de especificações coletivas”, pontua.

Assim, a tradição que nasceu para conservar carne nas propriedades rurais chega hoje como patrimônio gastronômico de Maracaju e de Mato Grosso do Sul.

 

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